De bicicleta pelo Sul do Brasil

A edição de novembro de 2012 da revista National Geographic Traveler publicou uma reportagem a respeito de um passeio sobre duas rodas pelas vinícolas do sul do Brasil. Na matéria, é citada a Osteria della Colombina, que faz parte da Estrada do Sabor.

"Estas atividades esportivas, como o ciclismo em meio aos vinhedos, são organizadas pelo pessoal do Caminhos do Sertão Cicloturismo (www.caminhosdosertao.com.br). Todo ano marcam presença aqui na Osteria della Colombina!", destaca a Família Odete Bettú Lazzari.

 

Confira a reportagem:

 

O Estado do Rio Grande do Sul é o lar de mais de 30 vinícolas, que podem ser visitadas também em duas rodas.

Texto e fotos: Charles W. Albertoni

As estradas serpenteiam por vinhedos e vinícolas centenárias, onde os barris estão sempre transbordando de bom vinho. Por esses caminhos, as bicicletas sobem e descem encostas de montanhas, no inverno cobertas de neblina e, no verão, pintadas com as cores das uvas maduras. No sul do Brasil, no Estado do Rio Grande do Sul, está a maior região de vinho de todo o país, uma geografia conhecida pelo nome de Serra Gaúcha e que produz cerca de 90% dos vinhos brasileiros. Incentivada pela crescente produção de suas principais vinícolas, esta área transformou-se em um núcleo em torno do qual se criou, entre outras coisas, a Rota do Vinho, uma rede de caminhos que não apenas permite percorrer por vinhedos, mas desfrutar de hipnóticas paisagens de vales desmedidamente verdes e rios sempre abundantes. Perder-se por essas direções é inevitavelmente encantador, especialmente se o percurso é feito em uma bicicleta, penetrando por trilhas entre parreirais, que são impossíveis de transitar por automóveis.

Batizada como a capital do vinho do Brasil, a populosa Bento Gonçalves constitui o coração insubstituível da região vitivinícola do Rio Grande do Sul. Montado em uma das principais vias de acesso à cidade, um enorme barril de quase 18 metros de altura dá as boas-vindas aos visitantes, como um símbolo inconfundível do que representa o vinho nesta área.

Esse monumento singular, que invariavelmente aparece em todos os cartões postais de Bento Gonçalves, abre as portas para uma cidade de 150 mil habitantes, a qual funciona como ponto de partida para um passeio de vinho que cobre uma terra onde são onipresentes os passos da imigração italiana, chegada ao sul do Brasil no final do século XIX. Foram precisamente esses imigrantes que trouxeram a esta região a cultura do vinho, ao encontrar aqui um clima semelhante ao de seus locais de origem, o que favoreceu a instalação de vinhedos.

Vindos essencialmente de Lombardia e Vêneto, os italianos começaram a produzir seus próprios vinhos a partir de parreirais muito pequenos que estavam apoiadas com suportes de madeira e se estendiam nas proximidades das casas, muitas vezes abastecendo apenas o consumo familiar. Embora no presente quase todos os pequenos vinhedos já tenham desaparecido, o legado desses tempos pode ser visto hoje em certas variedades raras de uvas que ainda são produzidas e que os imigrantes introduziram em sua chegada ao Brasil, como Lorena, Borgonha, Terci, Isabel e Peverella. A estes sabores, a vitivinicultura do sul do Brasil se somou a variedades como Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah ou Tannat, que em todos os casos alcançaram reconhecimentos internacionais.

Sobre duas rodas

De Bento Gonçalves saem estradas para todos os cantos da região vitivinícola do Rio Grande do Sul. Ciente da diversidade das estradas, é recomendável definir alguns caminhos padrão que são de interesse especial, como a rota do Vale dos Vinhedos e a rota de Pinto Bandeira. Ambas são ideais para os amantes da bicicleta, que muitas vezes se juntam em grupos organizados por agências especializadas. Sem dúvida, embora seja possível realizar o passeio de forma particular, um guia conhecedor da região é sempre a melhor opção, não apenas para escolher os caminhos mais atrativos, mas especialmente para saber onde parar, em escalas prazerosas nas vinícolas. A rota do Vale dos Vinhedos geralmente dura o dia todo e obriga a pedalar em torno de 20 km em uma geografia de colinas levemente inclinadas. Nesta área se encontram mais de 30 vinícolas, muitas descendentes diretas dos vinhedos instalados por imigrantes italianos há mais de cem anos, que produzem alguns dos melhores vinhos do Rio Grande do Sul. Dentro desse seleto grupo se destaca a vinícola Marco Luigi, produtora de um excelente Cabernet Sauvignon e cujos vinhedos podem ser percorridos por um caminho pedregoso, apenas adequado para bicicletas. Percorrer sobre duas rodas estes campos de uvas é uma das grandes atrações de um itinerário que termina na Osteria della Colombina, uma antiga casa da época da imigração, que funciona como uma tradicional cantina italiana, onde é possível comer todo tipo de pratos, desde sopas de capeletti e abundantes polentas até saladas e queijos diversos, tudo acompanhado por um vinho Isabel, uma especialidade da casa. Tudo é um prazer.

A rota de Pinto Bandeira também é uma das direções enoturísticas do Rio Grande do Sul, que não deve ser ignorada. Neste caso, o itinerário leva-nos por uma paisagem de montanhas altas que obrigam os ciclistas a subir encostas bastante íngremes. O esforço vale a pena, não somente por causa das vinícolas muito boas que se encontram pelo caminho, mas também pelos cenários naturais, especialmente o belo Vale do Rio das Antas, em cujas águas asseguram que se podem ver antas. Em sua rota, os ciclistas atravessam este rio na famosa Ponte de Ferro, construída em 1920. Uma tradição afirma que quem atravessa a ponte deve antes beber um copo de vinho. Ninguém sabe a origem deste costume, ninguém sabe a razão para este ritual, porém todos costumam beber sem perguntar  o porquê. No Rio Grande do Sul, na terra de serras e de uvas maduras, um bom vinho nunca se despreza.

 

Fonte: National Geographic Traveler - Novembro 2012


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