Histórias de mulheres que trocaram as grandes cidades pelas propriedades rurais das famílias

por Carlos Wagner

Com seus diplomas universitários em mãos, elas poderiam ter seguido carreira nos grandes centros. Algumas até deram passos nas correrias das cidades. Mas por escolha própria e consciente, voltaram às origens. Retornaram às propriedades rurais dos pais e colocaram todo o conhecimento a serviço da modernização dos negócios da família. Como a Ana Terra de Erico Verissimo, essas mulheres estão no epicentro de uma nova realidade que surge, estão vivendo uma revolução. Desta vez sem armas, mas com um mundo novo invadindo, sem pedir licença, o ambiente dos campos do Rio Grande.

As personagens desta reportagem estão à frente da modernização da produção agrícola gaúcha, um passo fundamental para a consolidação da classe média rural. É o que afirma Sérgio Schneider, professor de Sociologia da Alimentação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e presidente da Sociedade Brasileira de Economia, Alimentação e Sociologia Rural.

— Elas passarem pelas universidades e voltarem para casa para agregar conhecimentos à atividade da família é uma tendência que começa a se consolidar - descreve o professor.

Raísa Bettú Lazzari: Sob as cores do outono

As cores trazidas pelo outono nas folhas dos parreirais na Serra Gaúcha dão um toque especial a uma das mais belas regiões do Brasil. Nos bastidores deste belo cenário acontece uma ranhida batalha, visível a poucos: a luta dos colonos do vinho para manter o seu modo de vida, ameaçado pela globalização da economia.

O caminho apontado pelos especialistas para a sobrevivência dos colonos é torná-los um elo da economia globalizada. E é justamente neste ponto que vive Raísa Bettú Lazzari, 24 anos, formada em Turismo, com especialização em vitinicultura e atualmente cursando a faculdade de Administração.

Ela não se encantou pelas luzes da cidade e há anos decidiu que todo o seu conhecimento técnico e vigor físico estariam à disposição da família, que vive na Linha São Jorge, no interior de Garibaldi. Hoje, a propriedade é um bem articulado negócio que opera com o cultivo de uvas, cítricos, agroindústria (fabricação de vinhos e seus derivados, compotas e massas) e o turismo rural.

Para a trincheira dessa batalha, Raísa foi recrutada pela mãe, dona Odete. Em 1997, quando a menina tinha oito anos, morreu o pai, seu Danilo. As outras três irmãs, Rosângela, Raquel e Roselaine, já eram adolescentes. A mãe assumiu o controle dos negócios e reorganizou a vida da família. Na adolescência, Raísa teve uma oportunidade que as irmãs não tiveram: seguir a carreira em outro lugar. Mas depois de estudar e se profissionalizar, tomou a decisão.

— Não tinha muito o que pensar. O melhor negócio era me integrar à luta da família - diz.

A luta não é apenas uma palavra de efeito. Significa uma jornada de 15 horas de trabalho diário, que se inicia na roça e se estende até as salas dos operadores do turismo. Nos fins de semana, ela participa da vida da comunidade, com trabalho de catequese de crianças na paróquia.

— Precisamos mostrar aos jovens que vale a pena ficar aqui e investir no modo de vida das nossas famílias - prega.

Apesar de toda essa carga de afazeres, Raísa tem no rosto as feições tranquilas. Fala de maneira pausada sobre assuntos que se iniciam no trato das videiras até os mercados de turismo. Vive um ritmo frenético de trabalho, mas consegue encontrar a paz na paisagem da terra onde nasceu e escolheu viver.

O preço que a sobrevivência do modo de vida dos colonos cobra é alto. Sobra a Raísa pouco tempo para a vida pessoal. O namorado, por exemplo, ela só encontra uma vez por mês. Cuidar da pele e dos cabelos? Uma vez por semana, não mais. Não há tempo. Mas Raísa é bonita assim mesmo, ao natural, do seu jeito.

Fonte: DONNA ZH

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